O presidente LGBT de Itabirito, Leandro, fala tudo ao Minuto Mais

Leandro Dias, presidente do movimento ITA LGBT - Foto: Minuto Mais
Leandro Dias, presidente do movimento ITaLGBT

O movimento LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) itabiritense comemora uma vitória. No dia 14 de agosto, o ItaLGBT (Organização Não Governamental) receberá o Prêmio de Cidadania LGBT, um reconhecimento do Movimento Gay de Betim pelos trabalhos desenvolvidos pela organização liderada por Leandro Dias. Contudo, nem tudo são “flores” nesta entrevista. Com exclusividade ao Minuto Mais, Leandro fala de assuntos que se tornaram tabus na cidade. Entre eles, a confirmação daquilo que toda a sociedade já sabia: Leandro não teve nenhum tipo de relacionamento amoroso com o padre Miguel. Na época, foi uma farsa para tentar prejudicar o padre. A polêmica, divulgada pelo jornal O Grito, foi um dos maiores escândalos políticos (não partidário) da história recente da cidade.

Minuto Mais – Qual a importância do prêmio vindo de Betim para o ItaLGBT?

Leandro Dias: Trata-se de um reconhecimento de um dos grupos gays mais importantes do estado pelos trabalhos desenvolvidos por nós em Itabirito. Que incluem eventos que promovem a conscientização gay, a luta contra a homofobia, a distribuição de materiais – como camisinhas e folhetos. Para Itabirito, isso é só o começo.

Nessa luta qual é o grande destaque?

Ainda não temos um grande destaque. Estamos caminhando. As conquistas são diárias e a nossa batalha está avançando. Mas algumas coisas podem ser citadas, foi criado o Dia Municipal de Combate à Homofobia em Itabirito, que tem o apoio do prefeito Alex Salvador. Ele, como chefe do Executivo, tem demonstrado respeito às minorias que incluem os gays, os negros, a população de rua e todo tipo de classe menos favorecida na cidade. (Nota da Redação: a homofobia – aversão a gays – por si só não é crime. Torna-se um ato criminoso quando é associada à violência física ou psicológica).

Leandro, por que alguns líderes evangélicos estão tão preocupados em “minar” as conquistas dos homossexuais? Isso não lhe parece uma estratégia de marketing a fim de ter alguma popularidade de cunho religioso?

Eu não gostaria de entrar em uma discussão religiosa que tem a ver com uma escritura que foi feita, há anos, retratando uma época. O objetivo desses líderes é evangelizar e o nosso é buscar políticas públicas para o público LGBT. Uma coisa não deveria ir contra a outra.

Parte da população desconfia de sua credibilidade para estar à frente de um movimento importante. Como você responde a isso?

Não concordo com essa desconfiança. Muitas coisas foram realizadas em Itabirito com a minha participação direta: a fundação da UAI (União Ambientalista de Itabirito – ONG), a criação do Corpo Municipal de Bombeiros, a reativação do Codema (Conselho Municipal de Meio Ambiente). Desde que a UAI foi criada, principalmente na época, a cidade teve um “boom” ambiental. Começamos a questionar a destruição das áreas verdes, o comprometimento das águas que abastecem Itabirito por parte de mineradoras e a grande quantidade de loteamentos sem critérios ambientais sérios. As pessoas confundem o Leandro pessoal, com seus defeitos, com o Leandro liderança que tem qualidades. Em muitos momentos, fui imaturo, usado e “metralhado”.

Sobre as acusações de que você teria tido um caso sexual com o padre Miguel, uma polêmica que escandalizou a cidade. O que você tem a dizer?

Eu nunca fiz essa acusação contra o padre. Houve um oportunismo do empresário Geraldo Conrradi, inimigo do padre, que me convenceu a assinar um documento. Isso porque eu trabalhava com o padre no Museu de Artes e Ofícios (que pertence à Paróquia da Boa Viagem). Repito: nunca tive nenhum tipo de relação amorosa ou sexual com o padre. Convivi com ele durante anos, ele é uma referência em minha vida e um empreendedor como poucos.

Presidente do movimento ITA LGBT de Itabirito, Leandro Dias (4)Houve algum processo no “tribunal eclesiástico” sobre o assunto?

Não.

A coisa foi “somente” divulgada pelo jornal O Grito?

Sim.

Mas você sabia no que estava se metendo. O empresário prometeu dinheiro a você?

Sabia em parte. Ele prometeu, mas não pagou. Eu estava em um momento muito difícil em minha vida. Perdi o controle e me arrependo.

Para melhor entendimento: você assinou um papel dizendo que se envolvia sexualmente com o padre?

Assinei um papel e esse inimigo do padre inventou toda a história. Não autorizei a divulgação do assunto na imprensa. No papel, não constava que eu tive relação com o padre.

Mudando de assunto: antes a aids era vista como uma doença de gays. Depois, não mais se falava em “grupos de risco” e sim em “situações de risco”. Diziam que os gays estavam mais cuidadosos e os héteros estavam se contaminando porque se achavam imunes. Tudo isso tem um fundo de verdade, mas são assuntos discutíveis. Agora, falando especificamente de Itabirito, o número de gays com aids (ou “somente” soropositivos) é enorme na cidade. Fale sobre isso?

Não tenho em mãos os números de Itabirito. Contudo, é sim preciso haver mais cuidado com as doenças sexualmente transmissíveis no universo gay. Uma coisa é fato, alarmante e pode machucar alguns ouvidos: pela nossa maneira de vida, nós, homens homossexuais, temos 16% a mais de chances de contrairmos o vírus da aids. Isso incluem aqueles que se dizem héteros e se relacionam com gays. Esses dados são claros nos estudos em que o movimento LGBT têm acesso. A prevenção, de fato, “é camisinha, camisinha e camisinha”.

A cidade recebeu (e recebe) milhares de trabalhadores vindos de fora para exercer funções em mineradoras. Sabe-se que são intensas as relações desses homens com os gays de Itabirito.

Um dado que nos preocupa é que esses trabalhadores usam as casas de prostituição femininas da cidade e, muitas vezes, acabam saindo, na verdade, com os gays. Por isso, a nossa preocupação em ter distribuído mais de 7.200 camisinhas em empresas como MIP e UTC. Em Itabirito, como um todo, já distribuímos mais de 20 mil camisinhas, mais de 10 mil papéis com informações sobre doenças sexualmente transmissíveis e cidadania gay, e realizamos vários eventos discutindo o assunto. A Parada do Orgulho Gay de Itabirito é o resultado de uma caminhada longa e árdua. É mais que uma festa, é um momento de conscientização e de divulgação de um trabalho. Quero ressaltar que tão importante quanto a aids são as hepatites virais que são também doenças transmitidas pelo sexo sem segurança.

E finalmente, como está seu o relacionamento hoje com o uso de drogas?

Meu primeiro baseado (de maconha) foi aos 14 anos para me aliviar de uma tensão causada por um atrito com um antigo professor do GGG (atual escola Cemi). Já me internei em uma clínica e hoje acredito que ninguém se cura do vício por meio de internação. Infelizmente, nas relações homossexuais, o uso de drogas e bebidas é muito comum para “dar coragem”, para, de certa forma, justificar a relação homossexual. Isso, talvez, seja o resultado de um preconceito de que ser gay “é proibido”, “é errado”. Hoje eu defendo a legalização da maconha, por exemplo, por causa dos benefícios medicinais – a maconha me acalma e me controla. Sou dependente químico e sempre tento evitar o primeiro gole, “só por hoje”.

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