Padre Edmar de Itabirito. Foto: Minuto Mais

Quando o Minuto Mais decidiu entrevistar o pároco da Paróquia de São Sebastião, em Itabirito, padre Edmar José da Silva, de 40 anos (que recentemente foi homenageado com certificado de Mérito Comunitário pela Câmara de Vereadores pelo seu trabalho de um ano na cidade), a Redação acreditou que ele não responderia às questões colocadas pelo site. Ledo engano! Para o alívio da reportagem, o padre não é nada prolixo e respondeu às questões de maneira direta, sem rodeios e com a sapiência de quem foi, por 15 anos, diretor do Seminário de Filosofia, em Mariana.

Minuto Mais – O senhor pertence à Teologia da Libertação (No Brasil, movimento da igreja católica ligado à esquerda) ou à Renovação Carismática (movimento que trouxe à tona, no Brasil, nomes como os padres Marcelo Rossi e Fábio de Melo)?

Padre Edmar: Sou da igreja e tudo que pertence à igreja me interessa, sou pároco de todos. Na igreja, eu encontro com todos os movimentos e se seu fizer uma escolha por uns, estarei me afastando de outros. A Teologia da Libertação traz o comprometimento com os pobres. Já a Renovação Carismática ressalta a importância da espiritualidade. Não é possível haver espiritualidade sem comprometimento. E sem espiritualidade não se consegue muita coisa.

Como o senhor vê o fato de uma pessoa ser homossexual?

É uma questão complexa. Não existe uma única teoria sobre a origem da homossexualidade. Enquanto não se descobre a origem, não pode haver uma postura. O papa pede que todos sejam acolhidos do mesmo modo. O respeito tem de existir para todas as pessoas. Há muitos gays que atuam na igreja de maneira importante. O que eu não concordo é com uma espécie de lobby que prega a homossexualidade como obrigação. Mas acredito que todos devam ser acolhidos independentemente da raça, cor ou orientação sexual.

O senhor acredita que alguns padres escolheram o sacerdócio para fugir da condição de homossexual?

No Seminário de Filosofia, trabalhei por 15 anos com a dimensão humana afetiva. No decorrer do processo, o seminarista tem de se abrir. Ninguém nunca me falou que era homossexual e para fugir dessa condição optou por ser padre. Posso falar por mim. Definitivamente, não é o meu caso.

Como o senhor encara as várias denúncias de padres católicos pedófilos no Brasil e no mundo?

Independentemente da pessoa, pedofilia é uma doença. Não importa se o pedófilo é médico, padre ou professor. Para mim, ele é um doente. E tem de ser tratado na perspectiva de doença, e também sob o ponto de vista jurídico com as devidas penalidades. Não tem de haver diferença entre padres pedófilos e “não padres” pedófilos.

O que é a “Igreja Em Saída” (movimento tão divulgado em Itabirito)?

É a igreja ir ao encontro das pessoas doentes e realizar bênçãos nas casas, por exemplo. E não é somente o padre que é a igreja. A igreja somos todos nós. É o encontro com as pessoas de fora. Aconteceu de 25 de junho a 3 de julho, a Semana de Animação Missionária. Oito mil casas foram visitadas por membros da igreja. A ideia não é convencer as pessoas a virem para igreja, é principalmente ouvir as pessoas, abençoá-las, dar uma palavra de conforto. O objetivo principal não é fazer proselitismo (convencer alguém a frequentar a igreja católica). É bom ressaltar que, tradicionalmente, a Paróquia de São Sebastião sempre fez isso. Eu, por exemplo, nas terças, quintas e sextas-feiras, atendo na igreja. E nas quartas-feiras, eu vou até as pessoas. Nesta semana especial que citei, por exemplo, rezamos em pontos de ônibus. Foi uma experiência muito interessante. É como o trabalho que nossos irmãos evangélicos já fazem há muito tempo.

Qual a sua opinião político-partidária?

Como líder espiritual, não posso apoiar um partido ou pessoas. Não sou eleitor em Itabirito. Voto na cidade de Alto Rio Doce. Jamais opinaria sobre esse assunto porque isso dividiria as pessoas. Voto, na verdade, em quem se preocupa com os mais necessitados.

Qual é a maior qualidade e o maior defeito do povo de Itabirito?

Qualidade é fácil. O que eu percebo é que povo de Itabirito tem uma capacidade enorme de acolhimento. Percebi isso na prática. Eu me senti aqui como se eu fosse de casa. Outra qualidade é a solidariedade. Vi esse aspecto em campanhas, por exemplo, para a doação às vítimas de rompimento de barragem em Mariana. Outra campanha dizia respeito a um menino que tinha de fazer uma cirurgia na cabeça. Aqui, em Itabirito, a fé do povo é comprometida. Não é uma fé inócua – sem comprometimento. Já o defeito do itabiritense eu ainda não consegui perceber. Dizer que um povo inteiro tem algum defeito é uma generalização perigosa.

Qual é a sua opinião sobre o crescimento extraordinário das igrejas evangélicas no Brasil?

São, pelo menos, duas causas. Primeira – hoje há liberdade de escolha a qual grupo eu quero pertencer. A pessoa pode aderir, sem problema, ao movimento que ela achar melhor. Segunda causa – as pessoas procuram a religião levando em conta o seu individualismo. Não necessariamente por causa de Deus, mas para solucionar problemas pessoais. Muitas religiões oferecem essas “soluções”. Problemas conjugais, financeiros, vontade de ficar rico e por aí vai.

O projeto Ascender, da Paróquia de São Sebastião, é um dos trabalhos sociais mais impressionantes da história de Itabirito. Por meio do qual famílias puderam ganhar um lar. Fale sobre isso.

Já estão ocupadas 25 residências por famílias que necessitavam. Estamos em negociação de outro terreno para que mais famílias sejam beneficiadas. Mas, que fique claro, essas famílias não ganharam a casa. Elas se uniram para construir todas as casas. Não é um mero projeto assistencialista. Quando todos participam da construção de futuras moradias, nasce uma amizade especial entre o grupo. É claro, sempre com apoio dos voluntários. Os terrenos são doados e a igreja dá o suporte.

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