Casa do Presépio em Itabirito, Foto: Beto Novaes/EM

O presépio da casa de dona Maria de Lourdes, no bairro Capanema, em Itabirito (MG), definitivamente, já se tornou atração turística. Montado todos os anos pela família dela, o trabalho atraí a atenção do povo da cidade, turistas e da grande imprensa. Confira, a seguir, na íntegra, matéria veiculada neste domingo (24) pelo jornal Estado de Minas, e assinada por um dos jornalistas mais respeitados do periódico: Gustavo Werneck.

Presépio em casa de Itabirito reúne 10 mil peças e atrai até estrangeiros

As peças de tamanhos e materiais variados ocupam 53 metros quadrados da varanda em forma de ‘L’. Maria de Lourdes, dona do imóvel, mantém as portas abertas para receber os visitantes

Gustavo Werneck – Estado de Minas

Itabirito – As portas estão sempre abertas, gente do mundo inteiro é bem-vinda e há sempre um café coado na hora com pão de queijo quentinho para receber os visitantes. Na casa de Maria de Lourdes da Silva Martins Cardoso, em Itabirito, na Região Central, o período natalino começa bem cedo, lá pelo mês de junho, e termina quase na hora de iniciar o outro. Verdade. É que o presépio, senhor absoluto da varanda e agregador de toda a família, demanda muitos meses para ficar pronto e outro tanto para ser desmontado. De tanto gosto em recriar a vida de Jesus, Maria e José, a artesã moradora do Bairro Capanema ganhou o apelido de “Dona do Presépio” e fica feliz da vida. “É minha alegria, tradição que vem da minha avó. Respiro isso aqui”, conta Maria de Lourdes, casada há 36 anos com Faustino, mãe de Kelly Cristina, Maria Izabel, Danielli, João Paulo e Pedro Paulo e avó quatro vezes. “Todo mundo ajuda. Fazemos sempre juntos”, revela com entusiasmo.

O amor da artesã pelos presépios começou na infância em Pocrane, no Vale do Rio Doce, onde nasceu, sob orientação da avó Joana D’Arc. Depois, ao mudar para Belo Horizonte, o afeto se intensificou com os cuidados da mãe Almerita e mostrou que a recriação das cenas da Natividade ganhava mais sentido com união familiar e participação da vizinhança. “Morávamos perto da Toca da Raposa e vinha até jogador de futebol ajudar”, recorda-se Maria de Lourdes mostrando uma das peças mais antigas: um pastor de ovelhas de louça. Perto dali, há três figuras de crianças, uma delas a menina varrendo a casa, que são o xodó, pois pertenceram à avó. “Olha aqui! Já perderam até a cor. Por isso, deixo mais afastadas, para não quebrar”.

O entra e sai na casa é constante, chegam mineiros e estrangeiros, o que aumenta a excitação natural da época natalina. “Já veio até um japonês. Ninguém entendia nada o que ele falava, mas saiu satisfeito. Nós sempre convidamos para ir até a cozinha, e fica tudo bem. Teve também duas pessoas de Honduras, com um guia. Presépio também é um tipo de acolhimento, não importa a religião. Fazemos com carinho para todo mundo se sentir bem”, diz Maria de Lourdes, que acaba de entrar nos “sessenta” e não perde o pique. “Meu desejo é manter a tradição, daí a importância de os netos Giullia Eduarda, Francisco Gabriel, Giovana e Marjorie e as crianças vizinhas participarem. Gosto de um presépio em movimento, que está sempre se modificando. O melhor mesmo é inventar algo diferente a cada ano. Natal é renascimento, esperança, vida que se renova.”

União

Os números referentes ao presépio de Maria de Lourdes são superlativos: cerca de 10 mil peças de tamanhos e materiais variados, colecionados durante décadas, ocupando 53 metros quadrados da varanda em forma de L, na Rua Gonçalves Dias, 102. Antes, a estrutura entrava pelo quintal, mas as chuvas de dezembro acabaram reduzindo a empreitada. Enquanto atende a uma família de Itabirito que acaba de atravessar o portão, Maria de Lourdes pede à neta Giullia Eduarda, de 15 anos, para fazer as honras da casa e atuar como guia. A adolescente sabe de cor e salteado a história do presépio, conhece as passagens da vida da Sagrada Família e faz comentários divertidos sobre a vida de uma cidade.

O começo, logicamente, é pela gruta onde o Menino Jesus nasceu, com a manjedoura forrada de palha, José e Maria, o burro, o boi, os pastores e as ovelhas. Mas tem muito mais. Giullia mostra o restaurante, o circo, o hotel, a escola, o bazar e a fazendinha. Numa esquina, está o posto policial, perto uma cena de resgate aéreo, depois vem a devastação ambiental e a recuperação do verde, um pé de jabuticaba carregado de frutos e o cinema com uma surpresa: na tela tem filme de verdade, com um DVD portátil funcionando o tempo todo, informa Pedro Paulo, de 28, artesão, músico, operador de mineração e fã número 1 do presépio da mãe. “É símbolo de vida renovada”, diz Pedro Paulo.

Giullia continua a mostrar o presépio. “A ótica está fechada, pois é horário de almoço e o funcionário saiu. Os meninos jogam bola num campinho de várzea e o engenheiro verifica onde será a futura obra. E tem os deficientes físicos, pessoas atendidas no hospital, médicos e enfermeiros”, informa a adolescente com toda seriedade, apontando ainda a igreja cheia de fiéis, um salão de festas com músicos e uma cantora de microfone em punho, a universidade, o lago com peixinhos de verdade. Nesse momento, a avó chega e completa. “Esse lugar é fundamental e está de acordo com as palavras do papa Francisco de defesa da preservação ambiental. A novidade deste ano é a fonte jorrando água. E tem índios, negros, alemães, enfim, todo mundo”, afirma Maria de Lourdes. Ao lado, Faustino, também artesão, se mostra orgulhoso das casinhas de madeira cobertas com sementes secas, emendadas com rejunte e cola e pintadas com verniz. O efeito bem bonito chama a atenção pela semelhança impressionante com um telhado de verdade.

Uma das características marcantes do presépio de Maria de Lourdes é envolver o mundo contemporâneo no cenário da Natividade, cercando a gruta onde Jesus de acontecimentos que ganham páginas dos jornais, além de prédios e serviços que fazem a dinâmica de uma cidade – tanto que há uma minibanca com jornais e revistas. Desta vez, ela reservou espaço para uma fato de repercussão internacional, a tragédia de Janaúba, no Norte de Minas, que resultou em 13 mortes, sendo nove crianças, uma professora e auxiliares. Mas ninguém pense em chororô, pois a mensagem é de vida. Com retrato da professora e das crianças, há um grupo de meninos e meninas numa ciranda, “como devem estar brincando no céu”.

O tatuador Thiago Luiz Mendonça Damasceno, admirou o capricho com que o presépio é feito. Na sua primeira visita, achou “emocionante, com narrativa incrível e de um a simplicidade única. Tem alma, crítica social, arte”. Ao lado, a mãe de Thiago, Marilene, elogia a beleza e garante ser tudo diferente do que já viu, com o que concordam o filho Igor e a neta Ana Clara. Depois da visita, o caminho natural é descer as escadas, se impressionar com a quantidade de panelas e apreciar o pão de queijo. O curioso é que, nos cantos, há imagens de reis magos e presépios de outros tempos. “Fazemos nossa novena de Natal e rezamos na noite de 24 para 25. Sou muito católica”, conta Maria de Lourdes, mostrando que, em todos os ambientes, a boa acolhida realmente representa o genuíno espírito do Natal.