Tia Lola recebe o Minuto Mais em sua casa. Foto: MM


Definitivamente, Elisa Elza Rodrigues Bittencourt (a Tia Lola), de 88 anos, viveu a história de Itabirito (na Região Central de Minas) como ninguém.

PUBLICIDADE
WhatsApp Minuto Mais

Ela é filha do saudoso Agostinho Rodrigues, um empresário que era chamado de coronel. Tal “título” não era militar e sim por causa do poder econômico que ele tinha na época.

Foi Agostinho que trouxe, por exemplo, a energia elétrica para Itabirito. Inclusive, hoje, Agostinho Rodrigues é nome de um bairro tradicional do município.

Tia Lola é uma enciclopédia de conhecimento. Uma pessoa que consegue, ao mesmo tempo, ser fina e simples.

Tia Lola (88). Foto: MM

A conversa com ela (que poderia facilmente ser colocada em um texto quase que infinito. Haja vista, a riqueza de detalhes importantes) é o presente do Minuto Mais para o internauta nos 95 Anos de Emancipação Política de Itabirito, comemorada nesta sexta-feira (7), Dia da Independência do Brasil.

Minuto Mais: Fale um pouco sobre seu pai.

Tia Lola: Ele foi importante porque trazia para Itabirito algo que não havia na cidade. Trouxe indústria e couro por exemplo. Ele trouxe algo para nós, sem ter dinheiro, porque viajava e achava que Itabirito precisava. O couro estava em alta por causa das fábricas de sapatos que havia na cidade. Itabirito tinha cinco curtumes e 35 fábricas de calçados, que inclusive faziam botas para os soldados em guerra. Existiam os Cavalieris, os Farias, por exemplo, que eram empreendedores na época.

Mas esse pessoal empreendedor estava ligado ao couro e ao sapato?

Sim porque eles tinham fábricas de sapatos.

A gente está falando de que época?

Eu me formei em 1948. Então, estamos falando de uma época a partir de 1950.

Então a partir de 50, seu pai começou a atuar de forma efetiva?

Não, foi antes. Porque quando eu nasci em 1930, ele já tinha o curtume.

“Fa, Lá, Se, Me Ama”, diz o bordado que protege o piano na casa de Tia Lola. O mimo foi um presente dela a José Bastos (seu saudoso marido). Foto: MM

Como a senhora fala que seu pai trazia benefícios para Itabirito sem dinheiro se ele era o homem mais rico da cidade na época?

Ele era rico, mas não era de dinheiro, era rico de espírito e de querer. Ele não tinha o “dimdim”, tinha a vontade e os amigos que o acolhiam.

Mas ele não tinha propriedades?

A propriedade que ele tinha era o Curtume Santa Luzia.

Mas casas, fazendas, ele tinha?

Não. Muitos anos depois, ele comprou o Caco de Cuia, mas isso não rendeu dinheiro para ele.

Então, ele basicamente ele era um empresário que tinha um curtume?

Sim, que hoje é ocupado pela Prefeitura. O prédio está na “Vila” Gaiola (bairro Padre Eustáquio). Na época, não havia estrada. O povo ia trabalhar a pé. Inclusive, para chegar às fábricas de tecidos. Itabirito tinha cinco fábricas de tecido.

A partir do momento que seu pai chegou, Itabirito começou a ter esses empreendimentos todos?

Na verdade, ele nasceu aqui. É natural de Itabirito. E essas fábricas são também de gente de Itabirito. Você vai num lugar, vê uma roupa bonita, e pensa na sua mãe. Vê algo que seu pai gosta, você pensa: “vou levar para o meu pai!”. Ele era assim: via no Rio de Janeiro algo e queria trazer para Itabirito. E trazia.

Tinha prefeito a cidade?

Não. Depois que começou essa história de prefeito. Tinha pessoas que tomavam conta da cidade.

O seu pai era o principal? O que mais tomava conta da cidade?

Não. E que ele tinha uma indústria grande com couro de primeira. Comprava em Belo Horizonte a pele do boi, trazia nos caminhões, um mau cheiro horrível, e a levada para o curtume para ser beneficiada. Boi que foi morto em açougues, por exemplo, de Januária. Ele era fuçador de coisas para Itabirito. E fazia questão de trazer para a nossa cidade. Mas dinheiro que era bom, ele não tinha.

Ele que trouxe a energia elétrica?

Sim. Havia uma usina elétrica na Vila Gaiola que se chamava Agostinho Rodrigues. Tiraram, de lá, o nome do meu pai. Não tem mais. Mas foi ele que trouxe a energia para a cidade (…). E vou contar a você: dizia ele que quando ia inaugurar a energia elétrica em 14 de setembro, Dia de Bom Jesus do Matozinhos, Deus mandou uma chuva torrencial que todos os postes que ele havia colocado foram arrancados pela água que desceu do morro. Ele dizia: “não sei se fui orgulho ou vaidoso. Deus não quis que eu inaugurasse a luz naquele dia”.

Então, fizeram os postes, mas não ligaram a luz. O dia marcado, então, não foi…?

Foi, mas não aconteceu porque Deus mandou a chuva.

Isso foi que ano?

Bem antes de eu nascer. Eram aquelas luzinhas morteiras que tinham na cidade, mas tinham. E dizia ele que para ligar uma luz em uma casa (era uma peleja). As pessoas tinham medo de que a ligação fosse feita (…). Ele dava a lâmpada, fazia a viação, mas a pessoa tinha medo. Como hoje quando você compra um equipamento de primeira, você pensa: será que compro? Será que vai ser bom?

Tinha medo de eventuais acidentes na rede elétrica?

Não! O povo não aceitava. Porque o povo não aceita aquilo que vem do outro que está em evidência. Até hoje é assim.

Mesmo ele trazendo benefício, algumas pessoas tinham resistência com relação a esses benefícios?

Sim, tinham medo de ligar uma lâmpada, uma energia elétrica, uma água dentro de casa. As águas nem sei com elas vinham, uma porcaria de água que havia em Itabirito (usada para abastecimento da cidade).

Os postes que foram colocados pelo seu pai iam de onde a onde?

Era somente no morro da igreja do Bom Jesus do Matozinhos.

O brasileiro tem receio em falar que é rico. Percebo que a senhora tem esse receio ao falar do seu pai, mas ele de tão bem-sucedido que era, tinha título de coronel. Não é isso?

Coronel ou tenente. Era pelo dinheiro que ela tinha. Entendeu? Não era título militar.

Então, como ele tinha o título de coronel, ele tinha bastante dinheiro.

Tinha bastante dinheiro. Tanto que você vê a nossa casa (residência histórica no Centro de Itabirito, ao lado do Largo do Banco do Brasil), é uma construção que não tem reforma. Coisas que têm nessa casa, você não acha quem as fazem (hoje em dia), e não acha mais para comprar.

A senhora viu a construção da casa?

Não. Quando cheguei já estava aí.

Que tipo de menina a senhora era?

No terceiro ano primário, “fomos” para o colégio interno, porque queriam que a gente estudasse. Primeiro, fui estudar no bairro Floresta (em BH), Colégio Santa Maria, escola de luxo, escola cara. Como as irmãs o fecharam, fui para o Sagrado Coração de Jesus na Rua Professor Morais (também em BH). Ali eu me formei. Eu era interna. Não tinha nem sequer Semana Santa. Íamos para casa somente durante 15 dias em julho. Era para estudar mesmo! Lá a gente teve títulos, aprendeu música, aprendeu a dançar, a falar e andar.

Aula de etiqueta?

Mais que etiqueta. Andar com a mãozinha virada assim (ela faz um gesto com a mão): andar assim era uma “bobiçada” (Risos). Era coisa da época. Hoje ninguém faz isso com os filhos. Quer estudar, estuda. Não quer, não estuda.

E seu relacionamento com as festas quando a senhora era menina? Quando digo “menina”, quero dizer 15, 18 anos…

Menina-moça (…). Eram três clubes em Itabirito: o Santa Luzia, chamado de “Friage” (não friagem) porque ele era frio e não tinha “dim dim”, o União e o Itabirense. A guerra nossa era o Itabirense contra União. Nós queríamos ser melhor que o Itabirense, e o Itabirense melhor que o União.

A senhora sempre foi União?

Sempre. Tudo do União saia de dentro de minha casa. Vassoura pra varrer, empregada pra limpar o clube, dinheiro para construir. Chamava União porque as famílias eram unidas pra formar o clube.

A alta sociedade itabiritense era do União?

Sim. Depois, veio o Itabirense. E era uma guerra louca entre os clubes. Nós tínhamos bandeira, o nosso clube, hinos. E eles ainda não tinham. Nós temos hinos maravilhosos.

O que a senhora sente falta que hoje não existe mais?

A gente andava pelas ruas com mais liberdade. Mas no meu caso havia os empregados que sempre me acompanhavam e me levavam aos lugares.

Levava de que forma?

A pé. Eles me deixavam no lugar e depois me buscavam.

No que diz respeito à importância política, seu pai foi o homem mais importante da sua vida. Contudo, seu marido (José Bastos Bittencourt, ex-prefeito de Itabirito) também marcou a vida da cidade. Principalmente, por ser um político atípico (…).

Era atípico porque gostava de fazer para os outros. E para nós, não. Nós já ficamos sem água e telefone porque ele não pagou a conta (Risos). Não era por falta de dinheiro, é porque ele pensava nos outros primeiramente. Ele achava que a família dele já tinha muita coisa.

Tem um caso do senhor José Bastos que ele gostava de descansar de dia na rede e isso deixava os aliados políticos enfurecidos. Isso é verdade? Como é essa história?

Depois do almoço, ele sempre dava uma deitada na rede debaixo de umas árvores. E uma vez, o cunhado dele (Flávio Bastos) deu uma bronca nele porque achou que ele estava malandrando. Flávio achava que aquela hora não era o momento de descansar.

Fazer a sesta (cochilo depois do almoço) é comum em países como o México.

No México, em muitos países, e também no Nordeste brasileiro. José Bastos era do Piauí.

Na nossa conversa antes da entrevista, a senhora me disse que havia marchinha de Carnaval feita em Itabirito e que fazia sucesso na cidade.

Sim. Como nas fábricas de tecido, as mulheres trabalhavam de tamanco para ter menos contato com as água pelo chão que eram comuns nos ambientes de trabalho, uma música foi feita: “(Cantarolando) Toque, toque lixeirinho, vão tocando os tamanquinhos. Vão tocando lixeirinho, pra fazer muitos docinhos”.

Por que docinhos?

Era só para rimar (Risos).

A senhora tinha bom relacionamento com o prefeito Manoel da Mota, e hoje tem bom relacionamento com o atual prefeito Alex Salvador. Como é isso?

Alex é uma pessoa do povo. “Não usa terno”, é comunicativo. Sabe quem eu sou, e sabe quem é você. Come em qualquer lugar. Alex sabe atender. Sabe escutar. Ele tem o espírito do pai dele: Manoel Salvador de Oliveira (ex-prefeito de Itabirito).

E como a senhora vê as atuais denúncias contra a administração?

Escândalos têm em todo lugar. Isso se dá na França, nos Estados Unidos. Veja o caso do ex-presidente Lula (…). Voltando ao Alex, se preciso, ele atende você em casa (…).

E o Manoel da Mota?

Doutor Manoel é do povo. A mãe dele lavava roupa para médicos de Itabirito. E ele se formou engenheiro. É um homem simples, não tem luxo.

E a história da madeira usada para fazer a imagem original de Nossa Senhora da Boa Viagem que está hoje na Paróquia de mesmo nome?

A imagem foi feita a partir da madeira de um cedro que existia na porta da igreja. E com essa madeira, foi feita também a imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem que está em Belo Horizonte.

Perdão, Tia Lola, vou voltar a falar de seu pai. Ele herdou o que ele teve ou conquistou?

Conquistou. O pai dele Manoel Antônio Rodrigues (avô de Tia Lola) era um português muito simples.

Seu pai era bravo?

Não, mas era enérgico quando precisava ser.