Lula e Bolsonaro. Fotos: reproduções

ARTIGO DE OPINIÃO – Antes mesmo de Lula ser preso, queria eu escrever este artigo. Mas sempre adiava a ideia por um motivo simples: tenho medo de petistas e “bolsonaristas”. Talvez não seja exatamente medo, mas preguiça de discutir com radicais. Lúcidos, quando a pimenta está no olho do adversário, e cegos a respeito de assuntos que não os interessam. Por exemplo, no caso dos petistas: o multimilionário esquema de corrupção para perpetuação no poder feito pelo Partido dos Trabalhadores. E no caso dos “bolsonaristas”: a radicalização de um discurso totalitário, como se as pessoas não tivessem o direito de ser “diferentes” daquilo que a nossa sociedade extremamente subdesenvolvida e radicalmente religiosa considera “normal”.

Sem mais delongas, é quase impossível que Lula seja candidato a presidente. Da cadeia, não dá para pleitear a vaga em questão. Comparo a situação de Lula ao meu ateísmo. Argumentos do tipo: “Deus é bom”, “curou o meu pai”, “mudou minha vida”, não fazem o “Criador do Universo” existir (para mim). As qualidades que imputam a “Ele”, não têm capacidade para “materializá-lo”.

Lula é mais ou menos a mesma coisa: o fato de ele ter dado oportunidade para que o brasileiro possa ter um curso superior, ter aperfeiçoado os programas sociais do ex-presidente FHC (criando o Bolsa Família, por exemplo) não dão a ele o status de inocente. “Lula é o mentor do maior esquema de corrupção da história do país” (palavra do Ministério Público Federal).

Sinceramente, acho que as qualidades dos governos petistas são poucas se comparadas aos defeitos: incompetência para gerir a economia, desemprego recorde, falta de articulação política e corrupção (muita corrupção). Mas, não sejamos radicais, nem só de desgraças se faz um governo do Partido dos Trabalhadores.

Por outro lado, acredito que Bolsonaro (PSL) terá dificuldade de chegar à presidência por estes motivos:

Ele está passando um perrengue para fechar alianças. Sabe-se que seu tempo de rádio e TV (propaganda eleitoral) é pífio. O receio dos partidos (sondados por Bolsonaro) talvez seja de ter seus nomes associados ao radicalismo direitista.

As elites têm horror ao Bolsonaro (quem gosta dele é a classe média). Historicamente falando, os grandes empresários de São Paulo e os latifundiários do Nordeste Brasileiro têm peso importantíssimo na escolha de um presidente. Contudo, não é regra. Em 1989, os ricos de São Paulo apoiaram Mário Covas (PSDB), mas venceu Fernando Collor de Melo, um candidato que tinha muitas semelhanças com Bolsonaro (…). E quando as elites não gostam da pessoa, como por um “milagre”, e somente com base na verdade (doa em quem doer), essa pessoa pode, por exemplo, aparecer estampada na capa da revista Veja protagonizando esquemas ilícitos que até “Deus duvida”. Ou seja, a campanha de Bolsonaro terá ataques pesados, que poderão significar uma baixa do eleitorado “bolsonarista”.

E por falar em semelhanças com Collor. Bolsonaro é visto como salvador da pátria, como também foi Collor. Bolsonaro é um elitista com poucas qualidades intelectuais, Collor também era. Bolsonaro é um radical de direita, com discurso intolerante com os “diferentes” – neste aspecto, especificamente, penso que Bolsonaro se assemelha mais a Enéas (um candidato que, em tempos de Bolsonaro, e radicalização – à direita e à esquerda – transformou-se postumamente em uma espécie de semideus). Seja parecido com Collor ou Enéas, essas comparações podem não significar alguma vantagem para a campanha bolsonarista.

Bolsonaro é mal visto entre as mulheres. Pesquisas indicam que ele precisará mudar essa realidade se quiser vencer a eleição.

Em entrevista ao programa Poder em Foco (SBT), o presidente do Datafolha, Mauro Paulino, disse que já faz algum tempo que Bolsonaro está estável nas pesquisas, ou seja, parou de crescer. Contudo, como foi observado, estagnou em um patamar que pode levá-lo ao segundo turno.

E por falar em segundo turno, Bolsonaro se mostra fraco nesse momento específico da eleição. “Fraco” talvez não seja a palavra certa. Para ser politicamente correto: no segundo turno, ele não se mostra suficientemente forte.

Bolsonaro pode até ser divertido em debates. Contudo, ele precisará adaptar seu discurso e radicalizar menos se não quiser perder eleitores em potencial. Nesse aspecto, ele precisará (é claro) participar dos debates – coisa que Bolsonaro não é muito fã. Ainda segundo o diretor do Datafolha, historicamente falando, o eleitor brasileiro não gosta de candidatos que fogem de debates.

Quero deixar claro que atualmente acredito que a maior preocupação seja não deixar o PT voltar ao poder. Esse retorno significaria um desastre para o país (seria a volta, por exemplo, do uso das estatais, à la PT, como fonte inesgotável de dinheiro da corrupção).

Não acho que Bolsonaro tenha a metade dos defeitos que imputam a ele. Nem a metade das qualidades. Acho que as bobagens que ele fala não são de coração, e sim por ignorância. Matutos falam coisas que depois se arrependem. Só acredito que ele seja carnavalesco, caricato, uma espécie de anticandidato. E por causa disso, sem condições de “levar o caneco” na disputa presidencial.

Não tenho dúvida de que Bolsonaro se transformou em fenômeno da política brasileira por causa do fracasso do PT. Trata-se de uma tendência mundial, a derrocada das esquerdas significar o fortalecimento da extrema direita (direitistas conservadores). Foi assim nos Estados Unidos, com Donald Trump. Pode até ser que aconteça no Brasil, mas sinceramente não acredito com base nos argumentos colocados neste artigo.