Nada como um dia após o outo; Lula recebeu a medalha pela primeira vez em 2003 das mãos do então governador Aécio Neves. Foto: Marcelo Sant'Anna

21 de Abril em Ouro Preto, Dia de Tiradentes, durante a cerimônia conhecida como Entrega das Medalhas da Inconfidência, normalmente, é assim: a praça, que leva o nome do “herói nacional”, é vigiada por um enorme aparato da PM. Dependendo do ano, o povão tem de ficar bem afastado e várias tendas gigantescas são armadas para abrigar os “escolhidos” (no sentido amplo da palavra). Isso porque autoridades, imprensa e agraciados “não podem” ser expostos ao sol.

Na BR-356, que dá acesso a Ouro Preto, é policia que não acaba mais. Isso quando a via não passa por melhorias uma vez que autoridades “não merecem” trafegar por estradas esburacadas.

A bem da verdade, conta-se nos dedos quem leva a sério o 21 de Abril em Ouro Preto. Com respeito à história e Minas (que mudou os rumos do país), a celebração ouro-pretana é um teatro que pouco significa para a maioria dos mineiros. Tampouco, para os outros brasileiros.       

Na teoria, a entrega da Medalha da Inconfidência é a mais alta comenda concedida pelo governo de Minas Gerais, atribuída a personalidades que contribuíram para o prestígio e a projeção mineira.

Na verdade, é um agrado do governador aos seus aliados políticos. Agrado pago com o dinheiro do contribuinte.

Para se ter uma ideia do aparato que é montado. Em 2001, quando Itamar Franco era o governador de Minas Gerais, quase 1.000 policiais compunham o sistema de segurança.

“Um mundo” é mobilizado para uma cerimônia que só tem importância para os colegas da imprensa mineira. A imprensa nacional, por sua vez, quase que ignora o teatro.

O que mais chama a atenção são os homenageados. Zezé de Camargo e Luciano (em épocas em que se podia fazer shows em campanhas eleitorais), líderes do MST, políticos investigados, vale tudo quando o assunto é homenagear os aliados do governador.

Não importa o partido do chefe do Poder Executivo mineiro, a fórmula é sempre a mesma.

Este ano, Luiz Inácio Lula da Silva (do PT, partido do governador Pimentel) seria o principal homenageado. Contudo, o clima político desfavorável fez o ex-presidente desistir de ir a Ouro Preto.

O líder máximo petista é um dos ex-presidentes que figuram entre os nomes sobre os quais o ministro do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, pediu investigação. Collor (alguém sabe o atual partido dele?), FHC (PSDB) e Dilma (PT) são outros citados.

Lula, na cerimônia, foi “substituído” pelo ex-presidente da África do Sul, Nelson Mandela (in Memorian).

Implicitamente, há uma comparação entre Lula e Mandela. Um desacato à história do líder africano (se vista sob o ótica do senso comum).

Só para esclarecer: a entrega das medalhas foi criada em 1952, durante a gestão de Juscelino Kubitschek (quando governador de Minas).

São quatro as designações entregues (dependendo do homenageado): Grande Colar (Comenda Extraordinária), Grande Medalha, Medalha de Honra e Medalha da Inconfidência.

O brasileiro comum não faz ideia de como todo esse teatro é enfadonho.

Pobres colegas da imprensa mineira que são obrigados a cobrir toda essa encenação!