Perdro Ayres é um dos fundadores do PSOL em Itabirito e é um dos defensores da ideia de equiparação dos salários de professores e vereadores. Foto: arquivo de família

Pedro Ayres* – Especial para o Minuto Mais

Atualmente, várias cidades de Minas Gerais, estado reconhecido por grandes rupturas de sistemas tradicionais ao longo da história, vem compartilhando, por meio das redes sociais, ações de reivindicação popular sobre uma melhor gestão e transparência no que diz respeito aos gastos públicos em excesso de nossos representantes. Em Itabirito, não é diferente. Por meio de uma iniciativa suprapartidária, fruto de discussão popular e descontentamento com nossos representantes, iniciamos a construção do movimento “Mais Repeito, Mais Itabirito”.

O conceito de democracia originado na Grécia e com ampla aceitação mundial nos remete a um processo de escolha popular sem remuneração dos eleitos. Vale a pena lembrar que num passado nem tão distante de Itabirito tivemos representações políticas honradas sem o recebimento de qualquer beneficio.

A atual classe política eleita através de um sistema viciado mantém condições distantes da população em geral. O processo político atual não prioriza a participação popular e sim quem dispõe de capital e capacidade de aglutinar mais pessoas em torno de um nome na maioria das vezes financiados por empresas interessadas em obter benefícios futuros. O fator financeiro sobressai sobre o fator democrático tendo como exemplo que as campanhas mais caras sempre saem vitoriosas em qualquer campo de disputa. A financeirização do sistema democrático leva a ausência de voz. Por isso, a urgência da tão sonhada Reforma Política em nosso país, como principal ação imediata para contornar esse cenário.

Ao reivindicarmos uma redução dos salários do prefeito, vice, secretários e em destaque a equiparação do salário dos vereadores ao piso municipal dos professores, bem como a redução das diárias, estamos propondo uma ruptura muito mais ampla com o sistema político vigente. Ao analisarmos o atual quadro de vereadores de Itabirito, muitos se encontram no terceiro ou quarto mandatos, assumindo uma verdadeira “carreira política” se tornando políticos profissionais ao invés de profissionais políticos.

Nós não temos a ilusão de que iniciativas como essa irão resolver totalmente os problemas de representatividade e de vícios como a financeirização e a corrupção de nosso sistema político. O que apresentamos é uma forma de moralizar a política em nosso município. É um pequeno passo diante de uma melhora num cenário que sonhamos. Sempre que pessoas e organizações debatem a lógica imposta vigente, gera uma reação devido às propostas romperem com sistemas enraizados. A pequena parcela de beneficiários desses sistemas atua no sentido de abafar essa organização popular. Deslegitimar uma iniciativa, fruto de discussão e apoiado pela maioria da população, é ir contra os princípios de representatividade dentro de uma democracia.

Devemos romper a ideia de que apenas pessoas capacitadas estão habilitadas a pleitearem uma representatividade política. É um discurso preconceituoso. Qualquer pessoa é capaz de fazer uma representação desde que ela esteja realmente inserida em campos de luta e ação popular. O que vemos é um deslocamento entre os campos de luta popular e a participação efetiva do legislativo. E sempre o campo de luta popular pressionando a ação do legislativo, nunca o legislativo encampando a reivindicação popular e levando a proposta ao palanque. Nos últimos anos, não houve nenhum momento de tribuna livre.

Acredito que demagogia é um vereador ao longo de seus 48 meses de representação utilizar o beneficio das diárias e reembolsar R$ 5.000 mensalmente, fora salários e outras verbas, enquanto um professor recebe R$ 2.293.844 mensal. A título de comparação, um professor pesquisador com pós-doutorado no Brasil recebe atualmente pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) diárias no valor de R$320 em participações de congressos e afins.

E nada melhor que começar a ruptura deste sistema político falido em vigência valorizando a classe mais importante para o desenvolvimento do país, os educadores. Em qualquer época, essa valorização é muito importante, mas especificamente neste momento, em que o Brasil se encontra em meio a transformações políticas, sociais, econômicas e culturais, a função docente passa a ser um pilar indutor de mudanças desejáveis pelo conjunto da sociedade.

Sou filho de professora e acredito esse ser o meu maior legado. E qualquer abordagem a respeito sobre desvalorização dessa classe, instintivamente assumo a posição de defender essa bandeira tão importante para a formação de Itabirito, Minas e Brasil. Apenas por meio da Educação que garantimos nosso desenvolvimento social, econômico e cultural.

*Pedro Fontes Ayres é engenheiro de telecomunicações, pós-graduado em gestão de projetos, trabalha como coordenador de vendas em empresa do segmento de T.I. e é presidente do PSOL Itabirito e conselheiro da cultura.

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