Ilustração retirada do blog "Remexendo o Passado", do professor Josimar de SC

Pedro Ayres* – Articulista do Minuto Mais

Atualmente, nosso sistema político compreende-se através de um processo denominado “democracia representativa”, que consiste na escolha de representantes eleitos pelo povo que a partir do voto de confiança passam a representar nossos anseios na esfera política.  Diante do pluralismo de nossa formação histórica, tais como a influência de várias culturas, raças, ideologias e principalmente em virtude do tamanho de nosso Brasil, representações que assemelham ideais similares acabam-se convergindo em grupos, fomentando a criação de partidos políticos.

Cada partido político carrega ideologias próprias, fruto da representação de uma parcela do povo. Porém, ao levarmos em consideração o contexto histórico do Brasil, desde períodos como monarquia, café com leite, ditadura militar e agora democracia, as escolhas de nossos políticos ainda continuam sendo representadas na maioria das vezes por nomes de famílias tradicionais que se perpetuam ano a ano favorecendo a manutenção desse ciclo. O coronelismo de séculos passados continua em vigência, alterando apenas a época e cargos.

O instrumento de manutenção do coronelismo político, enraizado sistematicamente através de práticas desenvolvidas no intuito de favorecer essa perpetuação, acontece principalmente através do favorecimento a determinadas famílias numerosas no poder, nomeação de pessoas estratégicas para cargos públicos, compra de votos, aparelhamento dos canais de comunicação e financiamento de campanhas por parte do setor privado. Novamente ratifico a importância da tão sonhada Reforma Política como ação imediata visando tornar mais democrático o processo de escolha de nossos representantes.

Em Itabirito, e na maioria das cidades do interior, o sobrenome do candidato representa mais que seu partido. Desenvolvemos uma lógica inversa de representatividade ao ponto de muitas vezes os candidatos, envergonhados devido à crise partidária instalada no Brasil, nem ao menos citam seus partidos e coligações. A crise de representatividade instalou-se na medida em que os cidadãos passaram a perceber a distância entre as pressupostas molduras ideológicas dos partidos e as suas efetivas participações na política.

Podemos verificar a crise de representatividade partidária em Itabirito ao analisarmos o que considero um “fenômeno”: uma coligação entre PCdoB e partidos da direita conservadora como o DEM. Como um partido comunista de tamanhas lutas históricas e representações sociais consegue dialogar com uma direita radical, caracterizada por acreditar na supremacia de determinados indivíduos ou grupos considerados “naturalmente superiores” àqueles considerados inferiores numa sociedade? Os interesses e loteamento de cargos públicos tornam essas coligações possíveis afastando ainda mais a população de uma representação partidária. Se não conseguem manter ao menos uma fidelidade ideológica ao partido, o que esperar dessas representações no poder?

Em outro episódio em nossa cidade, vimos um vereador aproveitar da abertura da janela de transferência partidária para trocar de partido em pleno mandato.

Essas regras irreais, que a Reforma Política propõe mudanças, incentivam a dispersão partidária diluindo a representatividade e favorecendo a entrada de oportunistas na vida pública, contribuindo para a degradação da imagem da democracia representativa.

Analisando nas esferas estaduais e federais, a crise representativa evidencia-se ainda mais. Trocam-se de partidos como trocam-se de roupas, no intuito de preservarem suas carreiras políticas e estarem presentes na governabilidade atual. Não posso deixar de citar neste aspecto o PMDB como partido mais evoluído se tratando de governabilidade, um verdadeiro parasita (hospedeiro) de poder.

O eleitor deve analisar seu candidato mutuamente ao seu partido, como uma única entidade, e fazer comparações de valores que ambos representam. De acordo com o analista político Sérgio Abranches que defende uma modernização dos partidos e a utilização das redes sociais de modo mais funcional, “Os partidos têm se apropriado das redes sociais para manipular os eleitores e para fazer mensagens de ódio contra os oponentes, quando na verdade tinham de usar as redes sociais para captar os sentimentos dos grupos mais afins dos partidos e formar sua nova agenda.” Ele defende também o uso da rede para criar formas mais diretas de democracia deliberativa. “A política não se modernizou tecnologicamente, nosso último avanço foi a urna eletrônica. É possível fazer uma discussão séria usando as tecnologias adequadas, com fóruns e tomadas de decisões mais democráticas.”

Acredito que neste atual momento de nossa frágil e adolescente democracia, um despertar da consciência política esteja acontecendo na sociedade. As máscaras partidárias estão caindo, os paladinos da moralidade antes intocáveis começam a ruir. A senzala com acesso a informações se rebela contra a “casa grande” e seus coronéis.  Algo está acontecendo e a vontade soberana do povo prevalecerá. Sem a participação popular na política não há democracia real.

*Pedro Fontes Ayres é engenheiro de telecomunicações, pós-graduado em gestão de projetos, trabalha como coordenador de vendas em empresa do segmento de T.I. e é presidente do PSOL Itabirito e conselheiro da cultura.